Quando eu tinha cerca de 14 anos de idade descobri que queria ser aviador da Aeronáutica. Naquela época eu trabalhava vendendo bilhetes de Loteria Federal ou picolé pelas ruas do Gama, cidade satélite de Brasília. Estudava à noite numa escola pública.

Vendo minha vontade de “subir na vida”, certo dia meus pais chegaram em casa com um folheto da Academia Brasileira de Aviação, em São Paulo. Mamãe pagou um dinheirão pela minha inscrição e pelas apostilas com fórmulas complicadas de matemática e física. Ainda bem que veio junto uma linda carteira azul plastificada com minha foto 3x4, comprovando que eu estava no caminho certo para “ser alguém na vida”.

Estudei. Fiz as provas num domingo no colégio CASEB repleto de jovens e cartazes com aviões e cadetes uniformizados e bem enfileirados na Escola das Agulhas Negras. Não fui aprovado. A minha segunda chance seria ingressar na Aeronáutica quando eu completasse 18 anos. Meus planos eram um só, ser aviador.

Chegado o sonhado dia da minha apresentação, levantei cedo, vesti roupa bem engomada e limpa, penteei o cabelo e coloquei cueca nova. Os colegas falavam que a gente ficava nu para os exames.

Para minha total decepção, logo no portão de entrada, um militar jovem com o dobro do meu tamanho e largura pediu que eu abrisse a boca. Obedeci-o com rigor militar. Ele olhou atentamente e me dispensou dizendo:

- Você tem poucos dentes. Não pode servir.

Quase chorando implorei para entrar e que fosse examinado e prometi que em breve eu cuidaria dos dentes. Ele respondeu:

- Não pode. Você também tem uma cárie bem grande.

Naquele dia sofri a primeira grande humilhação e decepção da minha vida.
Dando-me por vencido, inconscientemente eu tinha um plano B. Ser General do Exército. Dias depois me apresentei ao Exército. Vesti as mesmas roupas, penteei o cabelo bem rente e desta vez fiquei nu com um bando de moleques magricelas e imberbes que nem eu. Lá também me mandaram abrir a boca mas não fizeram nenhum comentário. Pelas noites seguintes senti que meu sonho de General cinco estrelas seria realizado. Comecei sonhar com aquela farda quando era caseiro do Capitão Raul e D. Léa. Achava-o muito bonito quando ele vestia a farda nas noites de gala.

Dias depois cheguei eufórico ao Quartel para pegar o resultado do meu exame. No meu certificado de reservista estava escrito: “Dispensado por excesso de contingente”.

Outra vez senti-me despido de roupas e de dentes.

Felizmente, hoje aqui em Manaus, não me pediram para abrir a boca ou ficar nu. Estou abrindo-a neste depoimento e despindo minha história de menino pobre sonhador.

Já que não pude ser um ás da aviação e contribuir diretamente para a defesa do meu país, espero fazê-la de outra maneira.

Vou sugerir à minha chefe, senadora Rosalba Ciarlini, que faça um projeto de lei para que os soldos dos militares aviadores sejam reajustados na mesma época e percentual que os salários dos Parlamentares.

Outro projeto que pretendo sugerir é que o Brasil, dentro de dez anos, tenha produzido o primeiro avião de combate totalmente fabricado com a inteligentia brasileira. Não falo apenas da montagem como é feita hoje na Embraer. A idéia do projeto é que o avião tenha todos os componentes da cabine (cérebro do avião) desenvolvidos e fabricados pelas universidades e empresas brasileiras. É desse modo que posso contribuir para a defesa do meu país.

Não pude ser aviador nem General. Mas alcei outros vôos.

Se eu conseguir êxito nesses projetos vocês verão o sorriso do desdentado mais feliz do mundo.

Obrigado a todas e a todos!