Nesses últimos anos está dando gosto ir ao cinema ver filme brasileiro. Ontem assisti Tropa de Elite 2. Tirando as poucas cenas de violência exagerada, embora condizentes com a realidade, e com investimentos, o filme prova o amadurecimento e profissionalismo do nosso cinema. Na minha visão de mero espectador, acredito que a mudança de postura do nosso cinema aconteceu a partir do filme Olga, estrelado por Camila Morgado. Demorou para amadurecer, mas felizmente nosso cinema não se dedica mais às pornô chanchadas mostradas na minha adolescência.

Deixemos o cinema e vamos falar de Congresso Nacional. Aqui no Congresso existem várias Bancadas, também conhecidas como “Tropas”. Temos a Bancada (Tropa) da Saúde, da Bola, Rural e outras. A tropa mais conhecida, e temida, é a “Tropa de Choque”. Geralmente formada por parlamentares governistas, é acionada para proteger o Governo nas votações espinhosas ou quando algum membro do Governo cai em desgraça corrupcional. Ela aterroriza os adversários - por isso a alcunha de ‘Tropa’. Conta com a máquina do Estado para desmoralizar e intimidar os que querem punir o pupilo governista corrupto.

O filme Tropa de Elite 2 traz uma grande novidade para um filme comercial. Aborda o lado político dos problemas brasileiros, nesse caso, a violência urbana. Com bastante inteligência, o filme põe o dedo na ferida e mostra a fábrica da violência nas cidades. Revela os bastidores da política ao denunciar o cinismo de homens considerados “acima de qualquer suspeita” e o quanto eles ganham ou pagam para manterem-se no poder nem que para isso homens, mulheres e crianças paguem com a própria vida. O filme mostra que a violência é conseqüência de atitudes ou negligência de alguns engravatados encastelados no Congresso Nacional. Quão bom seria se o próximo Tropa de Elite tratasse a relação direta entre falta de educação de qualidade e aumento da criminalidade.

Para escrever esta crítica fiz uma ligeira pesquisa nas páginas do Congresso e confirmei o que suspeitava. Não achei nenhum pronunciamento de nenhum político sobre o filme. Eu esperava que esse comentário viesse em forma de protesto contra o filme, proferido por alguém “acima de qualquer suspeita”, mostrando ao diretor do filme, José Padilha, que o Congresso Nacional não tem culpa pela bala que atingiu aquele jovem que neste momento agoniza numa UTI Brasil afora. Por fim, esperava que esse político, admirado por todos, defendesse o Congresso Nacional e a política brasileira, fazendo valer o desejo dos seus patrões: os eleitores.

No filme, o Comandante da Tropa de Elite sai em defesa do seu Batalhão e cumpre com rigor e determinação as ordens do Chefe, o Governador. Até o momento em que fecho este artigo o filme já foi visto por mais de dois milhões de pessoas. Ora, um filme com abordagem política apreciado por tanta gente, em ano eleitoral e nenhum político se manifesta, deixa-me propenso a acreditar no filme, apesar de ser uma peça de ficção.

Esse filme está instigando diretamente os governantes passados, atuais e futuros, todos os funcionários públicos, independente do cargo, e ninguém, nem eu, manifesta-se publicamente. Ano de eleição e os políticos ignoram o frisson de mais de dois milhões de eleitores que já viram e comentam o filme.

Será que nenhum parlamentar governista viu este filme? Se se trata de um filme que caiu no gosto popular, por que nenhum dos candidatos não incluiu este assunto nos programas eleitorais? Se os governistas o viram, e o filme atinge os atuais governantes, por que a “Tropa” silenciou?


Texto elaborado em 19/10/2010