Acabei de chegar do cemitério onde fui-me despedir de um amigo. Nesta semana morreram quatro pessoas que direta ou indiretamente eram do meu convívio.
Por causa dessa avalanche de mortes, termino esta semana de farol baixo. Não encaro a morte com naturalidade. Ainda não evolui tanto. Estou cansado, enfadado, angustiado. Mesmo que não nos encontrássemos diariamente ainda assim era confortável saber que aqueles amigos estavam lá e poderíamos nos encontrar, telefonar ou enviar um correio eletrônico. A minha dor é por que nunca mais os verei.
Assim viajamos pela terra. Ao longo da jornada vimos germinarem as sementes que plantamos em nossos jardins e corações. Seus botões desabrocharem, amarelarem e deitarem a terra que tudo alimenta e devora. Vimos nossos animais domésticos nascerem, crescerem, lamberem nossos pés, desaparecerem.
E quantos amores plantamos, regamos e os matamos? Raros são os casais que gestaram, pariram e até hoje alimentam e alimentam-se desse amor.
A intensidade da relação com a pessoa, determina quanto a morte vai doer-me o coração. Umas doem muito, outras vão mais fundo, doem na alma. Felizmente nunca fico indiferente. Mas desta vez doeu como nunca tinha doído. Belkis Faria morreu tragicamente.
Ela estava no avião da Legião da Boa Vontade que explodiu no interior de Minas Gerais. Não a conhecia profundamente nem sabia nada de sua vida. Sobrenome e idade (35) soube pelos noticiários. Não sei explicar porque ela trazia-me grande paz, acolhimento, tranqüilidade...
Estivemos juntos várias vezes por questões profissionais. Na véspera do acidente fatal telefonei a ela para dizer que estive com sua irmã Flávia e com o Dr. Paulo. Ela disse que estava percorrendo Minas Gerais entregando cestas básicas a famílias carentes, depois seguiria para o interior de Goiás e Tocantins com a missão de aliviar o sofrimento dos mais necessitados. Dói muito saber que não nunca mais verei a Belkis.
Essas fatalidades obrigam-nos a colocarmos os pés no chão e mostram o quanto somos falíveis e temos um prazo de validade.
Hoje é sexta-feira, e eu já contava que meu fim de semana seria apenas de saudades dos amigos recém falecidos. Fui o primeiro ao chegar ao trabalho e aos poucos vi os atuais colegas chegando. Esses colegas são novatos no meu convívio. Ao chegar cada um desejava-me ‘bom dia’ e abria um belo sorriso. Quando o último chegou eu já respirava aliviado. Sentia um prazer imenso de tê-los ao meu lado. Ao longo do dia aprendi que os amigos que se foram eram de grande importância para meu bem estar. Os de hoje também o são. Devo conservá-los. Para completar meu alívio, a noite fomos a casa da Jaque para gostosas horas de felicidade regadas a piadas, cerveja, churrasco e boa música. Mesmas coisas que fiz ao lado daqueles que acabaram de falecer.
Foi grande alívio ver que apesar de perder um amigo outros se aproximaram de mim e me refiz da dor. Mas não pensem que estou preparado para novas perdas.


Texto elaborado em junho de 2011