Marcelo Yuka é o baterista do conjunto Rappa. Aos 34 anos de idade ele foi atingido por nove tiros quando tentou proteger uma pessoa que estava sendo assaltada no Rio de Janeiro. Um dos disparos atingiu sua coluna e o condenou à cadeira de rodas.

Numa entrevista ao Programa Conexão Roberto D’Ávila, Marcelo disse que quando estava saindo do coma, e tomando consciência de sua nova condição de cadeirante, sentiu enorme necessidade de “sentir vida” ao seu redor.
Deitado no leito do hospital, o sinal de vida mais próximo era a médica ao seu lado. Em busca de vida ele pegou a mão dela e acariciou. Num gesto brusco a médica tirou a mão, e em tom seco e decisivo, disse: - Sou paga para te ajudar, não ter pena de ti.
Num certo fim de tarde eu e Suzana fomos visitar sua mãe que havia sido internada na manhã daquele dia no hospital Anchieta. Frágil pela idade, mas sem doença grave aparente, esperávamos encontrá-la de alta, pronta para ir pra casa. Infelizmente, um médico trouxe-nos a fatídica notícia que a mãe dela tinha ido a óbito.
Assustada e deixando rolar as primeiras lágrimas, Suzana exclamou: - Não acredito!
Aos berros, num estado de total descontrole o médico a fuzilou com:
- Está me achando com cara de mentiroso? Você acha que estou brincando? Que necessidade tenho eu de mentir?...
Mesmo tendo que administrar a perda da mãe, ela percebeu o descontrole do médico, engoliu o destempero dele e chorou em silêncio, sem uma palavra de conforto do médico nem o direito de saber detalhes dos últimos suspiros da mãe.
Conheço um médico que gabava-se em dizer que às vezes não atendia certas pessoas ou porque estava jogando paciência no computador ou porque estava acompanhando suas ações na bolsa de valores ou simplesmente estava de “pá virada”, como ele mesmo dizia. Ele falava isso de maneira jocosa e não mostrava nenhum arrependimento, ou coisa que o valha, pelo fato de não ter aliviado o sofrimento de alguém. Esse colega é funcionário público bem relacionado, portanto, corria pouco risco de receber uma punição severa.
A vida dele transformou-se quando soube que seu filho, um jovem de 20 anos, universitário, estava com uma doença grave e restavam-lhe poucos dias de vida. Como pai desesperado, gastou todo o dinheiro que tinha na bolsa para curar o filho. Como médico bem relacionado, pediu ajuda aos melhores médicos. Não adiantou. Poucos meses depois o rapaz faleceu. Acho que esse meu conhecido entendeu o cascudo de Deus e nunca mais o vi comentar que desprezara seus pacientes.
Quando dizemos que somos “filhos de Deus”, significa que alguém mais sábio corrigirá nossas atitudes prejudiciais a nós e aos outros.
Não desejo nenhum revés severo na vida da médica do Marcelo Yuka, nem com o médico que berrou com a Suzana. Espero que eles entendam que são grandes, mas Deus é mais.