"O avental (da dentista) pegou fogo e incendiou. Ele (o adolescente) conta isso como se estivesse contando o capítulo de uma novela"¹

Essa frase é da delegada Elisete Sato, que investiga o assassinato covarde da dentista Cynthia Magaly, 46 anos, queimada viva por que tinha só trinta reais na carteira. Esse crime sacudiu nossas estruturas emocionais, como também, poucos dias antes, o do estudante Victor Hugo Deppman, de 19 anos, que, embora já tenha entregue o celular e a mochila, foi morto por um jovem que completaria 18 anos três dias depois do crime.
Quero debater o caso da dentista. A delegada tem razão. O sujeito descreveu a dentista amarrada com o jaleco pegando fogo porque para ele crueldade, diversão e indiferença estão no mesmo palco. A cena da dentista pegando fogo é parte do seu roteiro. Quando saiu de casa ele já tinha esse roteiro pronto. Só faltava um personagem e ambiente que acomodasse a cena. Se não fosse aquela dentista seria outra pessoa, infelizmente.
Esse caso da dentista doeu-me me mais por que sou rodeado de dentistas pelos quais tenho muito carinho, tanto pela competência, fizeram milagres na minha boca, quanto pelo parentesco.
Esse criminoso não poderia demonstrar outra reação senão a de indiferença. Tal qual um ator das nossas telenovelas ele representa um personagem, não o leva consigo para sua casa. Ele mata e vai embora com a sensação de missão cumprida. Quando um ator se destaca por um personagem que cai nas graças do povo, fica conhecido por aquele papel que representou. Por vários anos esse assassino será lembrado pelo caso da dentista. Será respeitado entre seus comparsas e, como é menor de idade, na próxima semana estará assobiando pelas ruas da cidade procurando novos personagens e cenários para encenar outro espetáculo de horror.
Tal qual ator famoso, apareceu em todos os meios de comunicação, foi capa de muitos jornais, mostrou o dedo indicador para as câmeras quando estava sendo levado pela polícia. Enfim, teve seu momento de fama nacional. Triste fama.
Ao mostrar o dedo para as câmeras, ele estava dizendo que queria privacidade. Os fotógrafos e jornalistas eram paparazzis invadindo sua intimidade.
Nós espectadores, nos assustamos a cada dia porque diariamente alguém entra em cena e provoca cenas horrorosas que nos causam náuseas. As câmeras instaladas nas ruas que até há pouco tempo eram para chamadas de "Câmeras de Segurança", não inibem mais ninguém. Servem para registrar os horrores e mostrar nossa vulnerabilidade em tempo real.
A dentista foi queimada viva porque só tinha trinta reais. O próximo dentista será queimado ao cobrar-lhe trinta reais pelo tratamento.
Aprendi com o amigo Theófilo Silva: Shakespeare disse pela boca de Jacques em sua peça 'Como Gostais' que “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”.


¹ Jornal Correio Braziliense, página 11, 28/04/2013.