Faz algum tempo fui visitar um amigo na Papuda, a penitenciária de Brasília. Era domingo e fiquei o dia quase todo lá. Já tratei desse assunto noutros textos.

Naquele dia, ficamos sentados no chão forrado com toalhas ou jornal, congratulávamo-nos com os presos simpáticos, alegres e até dóceis.
Perto de mim um grupo ouvia as histórias de esperteza de um sujeito que driblou um caminheiro que carregava uma carreta de arroz que ia para o Goiás. Como o crime inverte todas as lógicas, neste caso o 'esperto' estava preso, o 'otário' solto.
Mais ao fundo do pátio havia um grupo de presos com familiares reunidos em volta de um membro da igreja. O pastor conduzia seu rebanho em alto som, gesticulava muito, e suava mais ainda debaixo de um sol castigante. Em êxtase, os criminosos louvavam Deus e cantavam lindos hinos religiosos.
No fim do dia, na fila para sair, eu e o pastor fomos revistados no mesmo quarto pela mesma pessoa. Para disfarçar o nervosismo daquela revista constrangedora, puxei conversa com ele:
- Muitas orações hoje?
- Muitas. Agora vou tentar umas visitas para o meio da semana. Tem muito trabalho aqui, tem muitos irmãos perdidos. - respondeu, entusiasmado.
Isso foi há alguns anos.
Acabei de sair de uma reunião cuja estrela era o deputado Jean Wyllys, para debater o projeto de lei que trata dos preconceitos contra homossexuais e da união homoafetiva. O plenário estava repleto de pessoas de várias igrejas, de homossexuais e simpatizantes mais ao fundo da sala com cartazes apoiando o projeto e bandeiras com as cores do arco-íris.
Entre os palestrantes estavam sociólogos, psicólogos, advogados e religiosos. Todas as igrejas presentes foram contra a união de pessoas do mesmo sexo. Um dos oradores mais exaltados era aquele pastor que vi na penitenciária. Ele defendia que, segundo a Bíblia, a união deve ser entre homem e mulher.
O que me inquieta é que o homossexual cumpre os mesmos deveres que os heterossexuais: trabalha honestamente, paga impostos, vota, tem uma família que o ama, louva a Deus... Ama alguém que também quer ser amado por ele/a.
O criminoso que o religioso tenta salvar da perdição não cumpriu os deveres que a sociedade nos impõe. Ele matou ou estuprou alguém que não queria sofrer essa violência. Sua brutalidade destroçou a vítima, a família da vítima e a dele próprio, pois o pátio da cadeia estava repleto de mães e esposas com feições sofridas visitando o criminoso.
A igreja, indispensável à sociedade, deve proteger seu rebanho e ao mesmo tempo fazer a seguinte pergunta: quem mais prejudica a sociedade, o homossexual ou o criminoso?


texto de 12/06/2013