Já é de muito sabido que não somos tão sabidos ao substituir nosso idioma por estrangeirismos ou palavras que diferenciam as classes sociais para privilegiar grupos 'superiores'. Algumas dessas mudanças, de tão incorporadas ao nosso vocabulário, não incomodam mais. Vitória da insistência, derrota da nossa auto estima.

Um exemplo disso é o vocábulo ladrão, que remete a pessoa de baixa escolaridade e poucos recursos econômicos. Como as classes sociais são estratificadas, o ladrão rico queria ser mais importante que o ladrão pobre. Então o rico se autodenominou corrupto (palavra suave, que até nos deixa dúvidas se ele realmente roubou). Aceitamos a diferença linguística e temos duas classes de ladrões. Embora nos tirem a paz, vamos convivendo com eles... E eles em paz com a Justiça.
Em junho as manifestações das ruas declararam a corrupção, em suas várias formas, como o inimigo da vez.
Quando o eleitor pagador de impostos se insurgiu no combate à corrupção, a ira se espalhou contra várias instituições e mirou alguns indivíduos. A dormência da Justiça e o cinismo de alguns corruptos fizeram crescer a disposição das ruas em tamanho descomunal.
As ruas nominaram alguns corruptos, o movimento ganhou força, exaltaram-se os ânimos. Contra o corrupto ou a instituição que o acolhe a força das ruas encontrou na força do Estado (polícia) uma barreira quase intransponível. Não pode um corrupto ser mais forte que um povo; tampouco pode o Estado, as leis e a democracia abrigar em seu seio alguém em descompasso com o desejo da sociedade. Esse indivíduo não pode desobedecer a ética, os bons costumes nem esvaziar o cofre público.
As primeiras manifestações de rua começaram a ser chamadas "Manifestações de jovens"; quando os mais velhos aderiram, imprensa e autoridades mudaram para "Manifestações de rua".
Os irresponsáveis naquela multidão foram chamados de vândalos (outra suavidade, soa até angelical). Eles evoluíram suas táticas. Agora são chamados black blocs, nome chique para quem depreda (outro vocábulo suavizador) o patrimônio privado e público.
Está na hora de substituirmos algumas dessas palavras. Eis a minha sugestão:
corrupto, por 'ladrão rico';
depredou, por 'desgraçou'; e
vândalos ou black bloc, por 'irresponsáveis'.
Não faz muito tempo, o noticiário policial, diante de um crime bárbaro, dizia que o crime foi cometido com ‘requinte de crueldade’. Tanto se fez - com a ajuda de psicólogos, linguistas e imprensa, que essa frase foi abolida porque de certa forma ela envaidecia o criminoso.
O combate à corrupção é uma batalha em favor de toda a sociedade. O ladrão rico não vive sossegado em seu esconderijo, não anda de peito aberto e cabeça erguida pelas ruas; a população não sossega sabendo que foi roubada. Combater a corrupção é uma guerra a ser vencida aos poucos, a começar pelos adjetivos.
Ladrão rico ou black bloc - não importa o nome que dermos, eles desgraçam a vida de muita gente e vandalizam nosso idioma.

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Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Black_bloc
¹ Black bloc é o nome dado a uma estratégia de manifestação e protesto anarquista, na qual grupos de afinidade1 mascarados e vestidos de preto se reúnem com objetivo de protestar em manifestações, conferências de representacionistas entre outras ocasiões, utilizando a propaganda pela ação para questionar o sistema vigente. As roupas e máscaras pretas que dão nome à estratégia são usadas para dificultar ou mesmo impedir qualquer tipo de identificação pelas autoridades, também com a finalidade de parecer uma única massa imensa, promovendo solidariedade entre seus participantes.
outubro de 2013