Na noite de 13 de junho de 2013 o Movimento Passe Livre, tomou a avenida Paulista, iniciando o movimento. Enfrentou a polícia que não poupou balas de borrachas nem cassetetes de madeira ou borracha.

Brasília. Eixo Monumental, em frente ao Estádio mané Garrincha. Sexta-feira 14 de junho de 2013. Incendiando pneus, cerca de 250 manifestantes bloquearam a passagem dos carros. O grupo se intitulava "Movimento copa para quem?".
Sábado, dia 15. Jogo entre Brasil e Japão, na abertura da Copa das Confederações. Os jovens se dirigiram da Esplanada dos Ministérios até o estádio Mané Garrincha. Confrontaram-se com a Polícia que usou balas de borracha, gás lacrimogênio e spray de pimenta..
Segunda, dia 17 de junho. Aconteceu a "Marcha do Vinage", cuja substância diminui os efeitos do gás lacrimogênio. A Esplanada dos Ministérios recebeu cerca de 10 mil manifestantes, alguns subiram a rampa do Congresso nacional, outros invadiram a Chapelaria do Senado.
Quarta, dia 19. Cerca de 600 pessoas, marcharam sem confronto com a polícia, da rodoviária do Plano Piloto até a avenida W3 sul pedindo tarifa zero para o transporte público coletivo.
Quinta, dia 20. Cerca de 35 mil pessoas marcharam pela Esplanada dos Ministérios. Ao final da manifestação alguns vândalos tentaram incendiar o Palácio do Itaramaty com coquetéis molotov, quebraram lixeiras e pontos de ônibus.
Quarta, dia 26. Cerca de 5 mil pessoas marcharam pacificamente da Esplanada dos Ministérios até o estádio Mané Garrincha, onde o abraçaram simbolicamente. Por volta das 21 horas alguns vândalos começaram atirar rojões em direção ao policiamento e, frente ao Congresso Nacional, que usou bombas de gás lacrimogênio e taesers para dispersar o grupo exaltado.
Os jovens do restante do Brasil acordaram de uma dormência de vinte anos, desde o impeacheament do então presidente Fernando Collor. Ganharam as ruas as manifestações dos jovens pelo Brasil afora contra a corrupção, a PEC 37 (que tirava o poder de investigação do Ministério Público), exigiram passagens de ônibus mais baratas, a saída do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, a prisão dos mensaleiros julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal.
Aos poucos os jovens saíram da frente dos computadores, deixaram os jogos pela internet, desligaram a página do facebook - febre para postagem de fotos e comentários sobre os mais diversos assuntos, desde política até o humor do internauta.
Com o crescimento das manifestações os políticos viram-se sem saber o que estava acontecendo. Eles não imaginavam que o povo iria para as ruas pedir o fim da corrupção, mais recursos para saúde, segurança e educação. Imaginavam o povo satisfeito com as votações inócuas e discursos intermináveis sem tocar nos assuntos que a população ansiava.
A primeira constatação foi a dificuldade para identificar o líder dessas manifestações. Não havia um carro de som com alguém chamando o povo para as ruas, também não havia uma reivindicação única, eram várias. Quebrando todos os costumes as redes sociais foi o ponto de encontro da juventude. Foi pelo facebook que os jovens foram se auto convocando, discutindo os problemas políticos e sociais, mostraram suas indignações e perceberam que precisavam sair do sofá e enfrentar o sol.
Antes desconhecidos, os líderes do Movimento Passe Livre foram recebidos pela presidente Dilma Rousseff, que imediatamente prometeu plebiscito para votar a reforma política, chamou os líderes partidários e os presidentes da Câmara e do Senado para fazerem uma pauta de votação urgente para atender os movimentos das ruas.
No desespero para mostrar serviço, antes de se reunir com a Presidente Dilma, o presidente do Senado apresentou uma pauta com vários projetos, dentre eles PLC 89/2077 - financiamento da saúde: destina 10% do PIB ao custeio da saúde; PLC 310/2009 - institui o Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros - REITUP; PEC 60/2005 - financiamento da segurança pública, que destina, durante cinco anos, 15% da arrecadação da União, 7% da arrecadação dos estados e 1% da arrecadação dos municípios ao financiamento da segurança pública, dentre outros exigidos pelas ruas.
No dia seguinte a esse encontro a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal - CAE votou o REITUP. O Senado apresentou projeto tornando gratuitas as passagens de ônibus urbanos, a Câmara dos Deputados derrubou a odiosa PEC 37. No dia seguinte (26 de junho) o Senado convocou sessão extraordinária, no mesmo horário marcado para uma grande manifestação da população, onde votou o Fundo de Participação dos Estados - FPE.
Com a população em frente ao Congresso Nacional e em outras partes do país, durante o jogo entre Brasil e Uruguai, pela Copa das Confederações, os senadores aprovaram o projeto que torna hediondo o crime de corrupção ativa ou passiva. Na mesma sessão, minutos antes, votaram o FPE.
Os senadores deixarem de assistir a seleção brasileira contra o Uruguai mostra o desespero deles em apaziguar os ânimos das ruas.
Estas manifestações mostraram outra vez que os políticos temem a reação popular. Em menos de 15 dias de manifestação já havia solução para reforma política (plebiscito), desconto no preço das passagens (REITUP), corrupção ser considerada crime hediondo, arquivamento da PEC 37, além de outras medidas que já estão em andamento no Congresso, no Palácio do Planalto e nas prefeituras.
Em fevereiro do mesmo ano, a população colheu 1,5 milhão de assinaturas para saída do Presidente do Senado, sem resultado. Bastaram 350 mil jovens nas ruas reivindicando ação dos governantes para que fossem atendidos em menos de uma semana. Quanto ao Presidente do Senado, os jovens precisam ficar nas ruas.
Manifestações nas ruas daqui a dez anos.
Como estas manifestações não tem qualquer ligação com as do impeachment, há vinte anos.
Acreditamos que atendidas algumas reivindicações, mesmo em parte, os jovens voltarão às ruas num prazo de dez anos. Os manifestantes de hoje tem cerca de 20 anos de idade, ainda estão concluindo seus estudos e procuram lotação no mercado de trabalho. Eles plantaram a semente para novas manifestações. Pautaram o Poder Executivo, o Legislativo e o Judiciário e também as polícias militares ao ensiná-las a apenas acompanhar a distância as passeatas.
As crianças que hoje tem 12 anos ou pouco mais, em dez anos terão a mesma idade que os manifestantes de hoje. Essa juventude terá necessidades que não fazem parte da vida dos jovens atuais. Como ainda estarão frescas as lembranças das manifestações de hoje, os manifestantes de hoje ainda estarão aqui com a cabeça fresca para relembrar suas façanhas e falar com entusiasmo aos mais jovens das atitudes dos governantes para atender as ruas.
A letargia que durou 21 anos, não deve se repetir daqui para frente. Os jovens mostraram que estão atentos aos assuntos políticos, aos rumos do país, as decisões dos governantes.
Com essas lembranças, daqui para frente, a juventude tende a ser mais exigente com os políticos. O impacto entre saber da História pelos relatos dos que presenciaram os fatos é mais impactante do que a História contada pelos livros, jornais e noticiários.

Na manifestação pelo impeachment a idade dos participantes era em torno de 20 e poucos anos. hoje, por volta dos quarenta anos, alguns deles são políticos, tais como o senador Lindberg Faria, líder daquela manifestação.
Numa situação em que quem estava fora do poder, ao entrar para a política, com o poder nas mãos, vemos os mesmos funestos cacoetes e atitudes dos velhos caciques políticos.
Naquela manifestação exigia-se a saída do presidente Fernando Collor, sob acusação de envolvimento com corrupção. Os presidentes seguintes, Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio da Silva - Lula e Dilma Rousseff, embora não pesem sobre eles sérias acusações diretas sobre corrupções, os seus políticos aliados, vários deles respondem, deixaram seus cargos e alguns até foram condenados - caso do Mensalão do PT - numa demonstração da corrupção generalizada na política brasileira.
Embora os Presidentes não sejam corruptos ativos, paira uma grossa névoa de dúvidas, sobre sua conivência com a corrupção.
Durante esses vinte anos, a corrupção esteve presente, ou mais visível, no Poder Legislativo. Citamos apenas os casos de maior repercussão nacional nos principais meios de comunicação: 1) Deputado Severino Cavalcanti, recebeu cheque... enquanto na Presidência da Câmara dos Deputados; 2) condenação dos deputados João Paulo Cunha, José Genoino e Waldemar da Costa Neto e José Dirceu e outros agentes de autarquias, no processo conhecido como Mensalão do Partido dos Trabalhadores; 3) a renúncia dos senadores Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, envolvido no caso do 'painel do eletrônico Senado'; 4) renúncia do senador Joaquim Roriz envolvido no caso da Bezerra de Ouro com o presidente da Gol Linhas Aéreas, Constantino; 5) em plena efervescência das manifestação nas ruas, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, usou avião da FAB para levar parentes para assistir a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha, no estádio Maracanã; 6) nessa mesma época o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, também usou da FAB de Maceió a Porto Seguro para o casamento da filha do senador Eduardo Braga; 7) cassação do senador Demóstenes Torres, por envolvimento com o bicheiro/contraventor Carlinhos Cachoeira; 8) o deputado dono do Castelo em Goiás; 9) cassação do senador Luis Estevão, envolvido no desvio de dinheiro do TRT de São Paulo, junto com o juiz Lalau; 10) prisão do deputado Donadon, por tráfico de influência e desvio de R$ 8 milhões da prefeitura? de Rondônia; 11) renúncia do senador Renan Calheiros, envolvido com a jornalista fulana, com quem teve uma filha.
Nessa análise superficial, constatamos que o Congresso Nacional esteve envolvido em mais de um caso por ano nos últimos vinte anos. Algumas vezes são casos de corrupção explícita. Noutras uma forma difusa. Outras corrupções, ainda, não vieram à tona.


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jornal Correio Braziliense, 29/06/2013, Caderno Cidades, página 23.