Puro pó

CERTAMENTE você já ouviu dizer que o carnaval é o maior espetáculo da terra. Também já ouviu que a Copa do Mundo no Brasil foi o maior evento mundial, visto por milhões de pessoas. Se você acreditou nisso, não se iluda, você foi enganado. O maior espetáculo da terra foi o seu nascimento. Se está duvidando, pergunte a sua mãe o que mais importante aconteceu naquele dia... Mãe não mente!
É verdade que você não foi visto por milhões de pessoas; nenhuma cidade parou para festejar seu nascimento nem tocaram nenhum hino para celebrar seu primeiro choro.
Creio que você também já disse que sua história de vida daria um livro. Como qualquer livro, há quem goste, quem não goste e quem nem o leia. Mas o livro existe, está ali na prateleira esperando para ser lido. E sua vida, que tipo de história ela é? Como você gostaria que ela fosse lida? Romance, aventura ou comédia?
Só você pode ser responsabilizado pelo enredo que começou no dia em que você nasceu. Hoje, tantos anos escrevendo, quem você gostaria que lesse sua história? Quais páginas você apagaria, rasgaria ou reescreveria? É assim que se escreve uma história. Rascunhando, apagando, refazendo.
Cada dia escrevemos um capítulo. Cada pessoa que conhecemos é um personagem nessa trama. Tal qual os mestres da literatura criamos e desaparecemos com alguns personagens. Quantas pessoas passaram pela sua vida? Num certo momento foram tão importantes que você chegou a dizer que sem elas não poderia viver? Hoje sequer lembra seus nomes ou ainda chora de saudades.
A primeira página da sua história é o registro do seu nascimento na maternidade, a segunda página é a certidão de nascimento. Sua inscrição na creche, o seu diploma de conclusão do ensino médio, sua carteira de motorista, o contrato de financiamento do seu primeiro carro, da sua casa. Sua certidão de casamento é outra página importantíssima. A certidão de nascimento do primeiro filho também vai para o seu livro. Nesse ínterim duas páginas você não pôde escrevê-las: as certidões de nascimento e de óbito.
Por causa de uma morte na família, ontem fui ao cemitério autorizar a retirada dos restos mortais de parente. O coveiro juntou os ossos e me entregou numa caixinha. Estremeci quando recebi na minha mão uma vida com muitas histórias. Foi então que passou-me um filme sobre quantas vezes aquela pessoa querida me fez rir, noutras tantas me pegou no colo e me aninhou... Quantas histórias ali na minha mão... Sua vaidade, seu batom, seus homens, tudo naquela caixinha escura. Todos os personagens que interpretou, criou ou matou estavam ali. Histórias repletas de heroísmos ou covardias.
Se ela pudesse voltar, se eu despejasse aquelas cinzas e ela reaparecesse, que histórias reescreveria? Quais manteria intactas? Quem sabe vivendo outras histórias num outro cenário. No entanto seu Deus, seus medos, sua coragem e seu orgulho... Tudo ali, numa caixinha, puro pó.