Crônicas 2015

Bafo da escravidão

Este ano voltei à Argentina, país que já visitei várias vezes, onde tirei lindas fotos e encheu-me os olhos com as dançarinas de tango.

Desta vez fui à cidade de Mendoza, ao norte. Infelizmente foi uma das piores experiências da minha vida. A começar pelas imagens da internet que vendiam uma cidade com bastante neve. Chegando lá descobri que há quatro anos não neva.

No primeiro dia fiz um passeio de reconhecimento procurando o que poderia haver de interessante para fotografar. Sempre faço isso ao chegar numa cidade.

No segundo dia, já em plena atividade, imaginei que a foto acima se chamaria “Um lugar ao sol”. Após o clique fui abordado pelos jovens da foto que me pareceram bons argentinos. Mostraram-se cordiais. Vendo a câmera na minha mão, quiseram saber a marca, se eu era brasileiro, de que cidade... Mas a conversa pareceu ir-se alongando além do necessário. Comecei a perceber que algo errado poderia acontecer. Me despedi e saí.

Após uns dez passos, o que está à direita da foto me chamou:

- Brasileño, ô brasileño!

Aproximou-se e disse que queria conversar mais. Nesse instante percebi o da esquerda correndo por trás de mim. Vi-me sendo encurralado. Nesse instante, guardei a câmera dentro do sobretudo e abotoei-o. Preocupado, pensei: ‘será que vou ter que lutar num país estrangeiro? Isso vai me trazer grandes problemas’.

No mesmo instante, analisei minha posição. Um muro à esquerda, uma fila de carros à direita, um sujeito jovem à minha frente e outro, mais alto, se aproximando por trás.

- Brasileño, para onde você vai?

Aqueci as mãos abrindo e fechando-as duas vezes. E apontei o dedo indicador à altura dos olhos dele e respondi:

- Vou passar por aqui. Vou para lá.

Meu amigo Jacson disse que fui assertivo, incisivo, determinado. Isso teria assustado o sujeito. A verdade é que o sujeito deu um passo para o lado e me deixou passar. Fui caminhando normalmente, mas em alerta para um suposto ataque por trás que felizmente não aconteceu.

A poucos metros dali sinalizei para um táxi, que não parou, embora estivesse vazio. Continuei seguindo para o centro da cidade e sinalizei para outro táxi, que não parou, também vazio.

Pensando que o volume da câmera dentro do sobretudo pudesse parecer uma ameaça, tirei-a e deixei à amostra. Um motorista fez sinal para que eu telefonasse. Outro, parado num semáforo:

- Perguntei - Está livre?

- Não está. – Respondeu o taxista.

- Retruquei. – Mas a placa diz que está livre.

- Não está mais!

Cinco táxis e nenhum parou. Após quase uma hora de caminhada, cheguei para um taxista que me aceitou. Aqui o chamarei de TXD. Sujeito simpático e que falava muito bem o português. Sobre minha aventura com os rapazes ele disse que eu estava na zona vermelha:

- É aqui onde ficam os lavadores de carros, as prostitutas e os homossexuais. Aqui eles assaltam os turistas e saem correndo para o outro lado da cidade, ninguém pega. Recomendo você não ir ao Parque O’Higgins. Lá é violento, há poucos dias mataram um turista lá. (sugiro substituir a repetição do “lá”)

Sobre os táxis, ele explicou:

- Brasileño, eu gosto muito do Brasil, já fui lá várias vezes com minha família. Mas o que vou te dizer não tem nada de pessoal contra você. Eles não pararam porque você é negro. Eles pensam que você é um assaltante.

Estarrecido com a revelação, argumentei:

 – Mas TDL é  meio-dia, as ruas estão cheias de gente, não estou tão malvestido. Além disso, tenho um monte de cabelos brancos, isso revela que não sou mais um jovem aventureiro.

TDL respondeu com delicadeza:

 – Não importa. Os mendozinos são muito preconceituosos.

 Fiz outra pergunta:

– E por que você parou para mim?

- Eu não parei. Você chegou e eu já estava parado num local com câmeras. Então a cidade inteira sabe que você entrou no meu carro.

De volta ao hotel, tentando digerir a discriminação, lembrei-me das poucas vezes que fui maltratado por causa da cor da pele. A primeira vez foi na adolescência, quando me aproximei do meu chefe que conversava com uma funcionária:

- Sai daqui porque o assunto é pra branco.

Hoje, aos 53 anos, na Argentina, novamente senti o bafo da escravidão.

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