Brasília é uma cidade cheia de simbologias. Uma das que mais gosto é das cúpulas da Câmara dos Deputados, a que fica virada para cima, e a do Senado Federal, virada para baixo. Na cúpula para cima ficam os Deputados. Por serem jovens estão receptivos a todas as ideias e anseios do povo.

Na do Senado Federal, virada para baixo, ficam os senhores com mais de trinta e cinco anos. Eles representam a sabedoria, a serenidade. Por serem mais velhos recebem as demandas da Câmara e serenamente debruçam-se sobre elas para não decidirem no calor da emoção.

Brasília tem cemitérios e cadeias e ambos têm forte simbologia entre si. No sepultamento o morto é acompanhado por parentes e amigos que vieram se despedir. Choramos juntos, nos abraçamos e nos confortamos. A emoção toma conta quando o coveiro lacra a cova com cimento. Entre soluções ouvimos o cimento fresco grudar e ser alisado pela colher de metal: Plof... zip... zip. Nesta hora a esperança do morto é o perdão de seus pecados. Sua alma ganha liberdade, tal qual passarinho se joga no azul infinito. É aguardada nos céus por outras almas que partiram antes; ou, no caminho inverso, andam a passos lentos e pesados, respiração ofegante rumo ao inferno onde é aguardada com uma calorosa recepção.

Nesses dias a Operação Lava Jato tem deixado cabisbaixos políticos importantes que até há poucos dias eram acima de qualquer suspeita – essa última afirmação é para satisfazer mais à poesia do que à realidade.

O corpo que antes vestia roupas caríssimas agora cobre-se com camisetas baratas; a cabeleira que escondia um penteado impecável agora mostra a silhueta da careca ridícula. Não que a calvície seja ridícula, o ridículo foi usar uma peruca para conquistar a mais desejada das mulheres brasileiras; os pés que calçavam sapatos caríssimos, ilustrados a ponto de servir de espelho, agora são substituídos por sandálias baratas adquiridas em qualquer mercadinho.

Apesar de todo esse constrangimento, de toda essa promessa de mudança no trato com a coisa pública, fica no ar uma sensação de que os políticos corruptos ainda não estão mortos. Feridos sim, mortos não.

Enquanto seus corpos estão sendo presos, suas almas vagueiam visitando outras almas atormentadas com a desenvoltura da Lava Jato. Num momento de cochilo da população elas se juntam e tem ideias mirabolantes como tirar o poder dos investigadores, perdoar o roubo do dinheiro surrupiado apelidado de ‘caixa dois’ ou fazer leis para trazer o dinheiro fugidio.

Na cela o condenado entra sozinho. Não é acompanhado pelos amigos e parentes. Sofrem os mais próximos, principalmente pai e mãe. Tal qual os defuntos, ficam para trás amores, prestígio, dinheiro e pertences. Suas esperanças desaparecem quando ouve a batida da grade, o correr do ferrolho e o fechamento do cadeado. Pah... cleque... clique.