Há poucos dias o Senado Federal promoveu uma audiência pública para tratar do roubo ao fundo de pensão Postalis, dos funcionários dos Correios. A sala estava lotada de funcionários aposentados, cabelos brancos e rugas no rosto que demonstravam os anos dedicados à ECT. Muitas lágrimas caíram durante os depoimentos com a frustração do dinheiro surrupiado pelos administradores do Postalis.

Quando alguém de fora diz que aqui em Brasília só tem corruptos nos acostumamos a dizer que a maioria dos ladrões são vindos de fora, ‘que você elegeu’, ‘que você mandou para o Congresso’... E completamos, ‘mas não se engane, temos nossos próprios ladrões’. Temos também nossos heróis.

Em 1977 enquanto passeava no zoológico um garoto de 13 anos descuidou-se e caiu na jaula das ariranhas. Ao ver o garoto sendo mordido pelos animais um sargento, que também passeava por ali, pulou no fosso, salvou o menino. O sargento estava ‘passando de carro com a mulher e os quatro filhos pelo fosso, quando ouviu os gritos do garoto’. “Parei o carro sem atender ao apelo da minha esposa, que pedia para eu ficar, e entrei no tanque das ariranhas”. “Eu não podia deixar uma criança ser devorada, sem fazer nada”, disse. Dias depois o sargento morreu com infecção generalizada em razão das mordidas dos animais.[1]

Não existe explicação para os atos heroicos. Não é diferente com a covardia. Eles se explicam por si só. Tanto heroísmo como a covardia vem de pessoas cujo interior está impregnado dessa ação. É dela, já nasce com ela. Só que, felizmente, festejamos os heróis e banimos os covardes. Existem mais heróis que covardes. Não adianta perguntar porque o herói age em defesa dos mais fracos. É da natureza dele ser assim. Não mede esforços, não mede consequências... Vai lá e faz. Nem que lhe custe a própria vida.

Hoje os jornais trazem na primeira página notícias das prisões dos prováveis larápios do Fundo Postalis. Um deles é Adilson Florência da Costa, o garoto salvo das ariranhas. O que teria dito aquele sargento sobre o comportamento do Adilson de hoje? Creio que ele diria “Ainda assim valeu a pena, fiz minha parte...” Coisa de herói!

Adilson a as ariranhas não são muito diferentes. Ambos devoram os incautos.

 Quanto ao anti-herói Adilson valeu a pena ser poupado das ariranhas, porque teve a oportunidade de, provavelmente, afanar o dinheiro dos aposentados e porque, sabe ele e todos nós, que em poucos dias estará livre para desfrutar do butim.

Adilson é um sujeito fadado a desgraças e jaulas. Desgraçou a família do sargento, desgraçou as economias dos aposentados, e agora envergonha sua própria família ao vê-lo nas páginas policiais. Saiu da jaula das ariranhas para a jaula da Polícia Federal. Ironia do destino: a polícia que um dia o salvou, hoje nos salvou dele.

Ele também é dado a ingratidão. O jornal da Universidade de Brasília noticiou sobre o acontecido no zoológico: “...Mas perdura um esquecimento – e a gratidão pode ser mais preciosa que o bronze dos monumentos. Passados 33 anos, o garoto resgatado das mandíbulas das ariranhas, Adilson Florêncio da Costa, jamais procurou a viúva ou os quatro filhos do seu anjo da guarda. Nunca bateu à porta deles. Nunca telefonou. Nunca enviou sequer um cartão de Feliz Natal.

– Ele nunca perguntou por nós. Mas não cobramos nenhuma atitude dele, seguimos nossas vidas – diz o filho mais velho do sargento, o médico otorrino Sílvio Delmar Holenbach Júnior, 39 anos”.[2]

Desde aquele dia de heroísmo o zoológico de Brasília chama-se sargento Sílvio Delmar Holenbach.


[1] Jornal Correio Braziliense, sábado, 25 de junho de 2016.