Por volta de 1986 saí de carona de Fortaleza para Brasília. Fui para a beira da estrada, mochila nas costas e dedão em riste. Nessa aventura, conheci um dos caminhoneiros que está nesta foto. Aceitei a carona pesar de ele está indo para o Rio de Janeiro. Passamos pelo Rio Grande do Norte para carregar o caminhão com melão. Chegamos na fazenda à tardinha e saímos à noite com o possante gemendo com o peso.

Foram três dias de muita parceria e conversa boa.

A confiança foi tão grande que ele me hospedou em sua casa, em Campos, com sua família. Foi nessa época que conheci o povo carioca e me apaixonei pela sua cordialidade e alegria. Mas isso é outra história.

Já na capital federal um amigo muito querido me propôs ser caminhoneiro. Ele já estava na estrada, tinha o caminhão e experiência. Fizemos algumas viagens transportando plantas ornamentais da Ceasa de São Paulo para Brasília. Eu me apaixonei pela liberdade do caminhoneiro. Como bom sagitariano, amo liberdade. Morro de medo da cadeia!

Foram dias de muita parceria e conversa boa.

Há pouco tempo, por força do meu trabalho, estive muito ligado à situação dos caminhoneiros. Foi nessa época que acompanhei de perto as discussões do Estatuto dos Caminhoneiros.

Naquela época, e acredito que não tenha mudado muito, os números mostravam os entraves da profissão, 46,4% citam o custo do combustível; outros pontos negativos são: perigo/insegurança (60,6%), o comprometimento do convívio familiar (32,1%). Em relação aos pontos positivos, eles destacaram a possibilidade de conhecer novas cidades/países (47,0%), a possibilidade de conhecer pessoas (33,0%) e o fato de a profissão ser desafiadora e aventureira (28,5%).[1]

Naqueles dias existiam no Brasil cerca de 43 mil caminhões parados nas empresas por falta de motoristas. Os estudos mostravam que os jovens não mais se interessavam pela profissão porque a tecnologia exigia conhecimentos que eles não tinham e estavam optando pelo ensino superior, já que o Governo Lula oferecia mais oportunidades através do Prouni e outros programas.

Há poucos dias desci no aeroporto de Brasília, peguei um Uber e o simpático motorista me contou que havia sido caminhoneiro por mais de trinta anos. Disse também que não estava num bom momento da vida porque estava em processo de separação do primeiro casamento. Sentia remorso porque não acompanhou o crescimento dos dois filhos, um rapaz e uma moça. – “Não vi meus filhos nascerem. Não joguei bola com meu filho nem comprei o primeiro absorvente para minha filha”. Falou com o peito cheio de dor.

Por outro lado, estava muito feliz naqueles dias porque acabara de nascer sua filhinha do segundo casamento.

- Estou apertado de dinheiro, morando numa quitinete apertadinha com minha mulher e minha filhinha que tem dois meses. Aprendi a lição e vou ficar perto da minha família. Por isso larguei a estrada e estou no Uber.

Todos esses homens com quem rodei nas estradas são de poucos estudos. São esses homens que hoje pararam de transportar combustível para abastecer nossos automóveis e aviões que transportam os cidadãos comuns, os políticos e os intelectuais brasileiros.

A paralisação dos caminhoneiros mostrou a importância deles para o nosso bem-estar. Sem eles ficamos sem melão e sem picanha nos supermercados.

Como o Presidente Temer não teve habilidade política para contornar a situação chamou as Forças Armadas para liberar as estradas. Só que as Forças precisam de combustível para suas viaturas; os militares também precisam dos mantimentos nos supermercados. Numa greve de caminhoneiros somos todos iguais.

Faltou ao Governo chamar os caminhoneiros para uma parceria e boa conversa.

Essa paralisação nos mostrará como o tomate e a alface chegam às nossas mesas. Nos obrigará a refletir sobre quem traz o que estamos comendo.

O país rendeu-se a uma categoria de poucas letras, que não acompanha o crescimento de seus filhos, mas cultua a liberdade, e transporta deste o melão para alimentar o corpo até a picanha, para alimentar a alma. Eles podem não ter estudos mas são muito viajados e sabidos.

Acabei de ouvir que a falta de diesel chegou aos portos. A sabedoria deles nos deixou a ver navios.

 


[1] http://www.cnt.org.br/Imprensa/Noticia/cnt-divulga-pesquisa-sobre-perfil-dos-caminhoneiros