Mais uma vez Brasília sediará um evento internacional. Há pouco tempo tivemos a copa do mundo; há quatro anos a Operação Lava Jato tem colocado vários políticos graúdos na cadeia com repercussão internacional e agora teremos o 8º Fórum Mundial da Água. Estão sendo esperadas 40 mil pessoas de mais de cem nações.

O vocábulo ‘Fórum’ significa local para discutir ‘direitos, privilégios e imunidades’. Portanto, neste evento serão discutidos os direitos de alguns acessarem água potável e de qualidade e quanta água pode ser distribuída para cada indivíduo ou nação. Uma questão há muito superada é que a água não deixará de existir em nosso planeta... A água potável é que está em questão.

Será um encontro de titãs. De um lado empresas endinheiradas tentarão convencer políticos e empresários de que ainda podem gastar muita água para fazer mais dinheiro. Do outro lado da pista, em galpões sem maiores luxos estará a sociedade representada por sonhadores, ideólogos, ambientalistas, ‘bichos grilos’... a população que paga a conta.

Vendo a programação percebemos que esses debatedores não se encontrarão, cada um no seu galpão defendendo o seu quinhão, a sua gota d’água. E só eles, o ser humano é capaz de definir quanta água irá para cada indivíduo e quais povos terão direito a matar a sede. A irracionalidade humana não aprendeu a agir como a água que não escolhe a quem saciar. Ela lava o corpo e mata sede seja branco ou negro, jovem ou ancião, animal doméstico ou selvagem. Corre solta nos vales acima ou abaixo da linha do equador sem se questionar se esses povos são dignos de aproveitá-la. O ser humano, na sua pequenez espiritual, faz escolhas, separa, discrimina. Já se reuniu sete vezes e se reunirá mais setenta vezes e não encontrará a equação que dirá que todos são iguais perante os mares e rios.

Este evento é muito representativo para Brasília porque neste ano de 2017, pela primeira vez, tivemos racionamento de água. Descobrimos que a água da capital federal é finita. Nos primeiros dias ricos e pobres ficaram sem tomar banho. Depois achou-se um jeitinho de desviar a água do Lago Paranoá para abastecer as piscinas.

Ainda não amadurecemos num grau de consciência de que os recursos naturais podem ser usados de maneira parcimoniosa, comedida, igualitária. A bancada da agricultura no Congresso Nacional ignora o alto consumo de água na sua produção. A agricultura gasta 91,5 litros de água para acrescentar 1 real à economia. O setor elétrico precisa de apenas 1,18 litros; a indústria de transformação precisa de 3,72 litros para acrescentar o mesmo 1 real.

Além disso é estarrecedor sabermos que 35 milhões de brasileiros não tem acesso à água potável. Isso num Brasil que somado ao Caribe e América Latina possuem a maior bacia hidrográfica do mundo.

Há uns trinta anos, a desigualdade em Brasília era anunciada pelo prefixo dos telefones: 377 é da Ceilândia, é favelado; 274 é da Asa Norte, classe média; 272 é da Asa Sul, classe alta. Hoje o mote é outro. Morar na Ceilândia, banho dia sim outro não. Morar no Lago Sul significa ter água para banhar todos os dias.

O que exigir dos debatedores para que todos tenham acesso à água potável e de qualidade? Educação para uso sustentável da água? Punição severa para quem usurpar seu direito sobre a água? Impeachment do governante que não se empenhar em garantir água de qualidade para toda a população? Aliás, água potável deveria estar nos compromissos de campanha dos candidatos nas eleições deste ano.

Neste 8º Fórum quem sentará no banco dos réus, a água ou o homem? Quem representará a água? Quem será seu advogado? Se fecharmos as torneiras e as descargas dos banheiros do evento que rumo o debate tomaria?

Por fim, trago duas lembranças para nossa reflexão. Num hotel em Pirenópolis está escrito: ‘A água do planeta é toda a água que temos’... No primeiro dia de aula o professor Barradas escreveu no quadro: “Água é vida. Muita água, muita vida. Pouca água, pouca vida”.