Acabei de chegar do sepultamento da Jéssica. Nunca vi velório com tanta gente de semblantes tão caídos. Já presenciei enterros de personalidades e políticos famosos, mas os semblantes, nem de longe, mostravam tristeza profunda. Em alguns casos estavam ali apenas para aparecerem na foto.

Como Jéssica era do Corpo de Bombeiros, as honras fúnebres agregaram ao rito o cortejo de carros da corporação com luzes vermelhas e sirenes que entoaram um som triste, enquanto o caixão descia à sepultura.

O assassino era policial militar. Não vi nenhum carro da polícia. Nenhuma sirene, ninguém fardado, nenhuma autoridade, nenhum pedido de desculpas.

Há poucos dias a Ministra da Justiça do Japão, Yoko Kamikawa, pediu desculpas à população porque a polícia demorou para prender um foragido da justiça: “Soube que o incidente tem causado medo entre os idosos que moram sozinhos e problemas como congestionamento no tráfego em pontos de verificação da polícia. Sinto muito”[1]

A nossa polícia não se desculpará e, talvez, não explicará quais seus critérios para aprovar em concurso público alguém com transtornos tão explícitos. Há um ano ele vinha ameaçando a família e constrangendo os amigos dela no trânsito.

Não adianta meias palavras. Somos o quinto país que mais mata suas mulheres. Não há como discordar de Eli Torres, quando diz que “existe a cultura de propriedade que precisa de rompimento. Isso se dá desde o berço, do colo e orientações dos pais sobre o respeito e convivência com as mulheres.”

Procurei na internet escola para os pais, achei apenas – apenas - a Escola de Pais. http://escoladepais.org.br/circulo-de-debates/

Precisamos pensar para um futuro próximo a inclusão de educação voltada para a família. Não falo de educação religiosa ou outra doutrina. Refiro-me à tolerância da convivência em grupo. A cada ano 50 mil pessoas são mortas no trânsito; 46 mil jovens negros e pobres são assassinatos nas ruas brasileiras; os nossos estádios de futebol são arenas de combate tal qual no Coliseu romano.

Outra amiga chegou há pouco da Inglaterra e comentou que achou estranho o filho da sua amiga, que também é brasileira, brincar de boneca. A mãe do garoto a levou ao quarto e mostrou o tanto de coisas róseas no quarto. Minha amiga arrematou: “Num primeiro instante até estranhamos. Passados alguns minutos percebemos que não cabe separar os mundos: mulher versus homem, negro versus branco, homo versus hetero. Somos uma só sociedade, temos que nos tolerar ou melhor, respeitar o outro, a individualidade e a vontade de não permanecer num relacionamento abusivo e que subjuga, em especial, a mulher. Não existe um plano B.”

Verônica Müller me escreveu: “A vida segue em conexão com o universo e o luto precisa ser vivido. Mas quando a morte vem de injustiça e quando é jovem...!!! Dói ainda mais na alma... Só muito silêncio para ajudar a adequar essa realidade ao que podemos aceitar...”

Impossível aceitarmos essa covardia com quem disse que amou aquela moça, dormiu com ela, beijou-lhe a boca e participou de seus segredos mais íntimos.

Finalizo nossa reflexão com Platão: “[...]assim, pois, eu afirmo que o Amor é o dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte”.

 


[1] http://www.portalmie.com/atualidade/noticias-do-japao/crime/2018/04/ministra-japonesa-pede-desculpas-por-falha-das-autoridades-em-capturar-fugitivo/