É difícil sermos contra a chegada das Forças Armadas no Rio de Janeiro para combater o crime organizado. O crime tomou conta das ruas, das praias e dos cofres públicos; tirou a vida de policiais honestos e civis inocentes; arrebanhou garotos pobres da periferia e até autoridades insuspeitas.

Logo na intenção da missão vemos que essa operação está fadada ao fracasso. ‘Combater’ o crime organizado não é o mesmo que ‘acabar’, ‘aniquilar’ ou ‘vencer’. O ‘combate’ não tem a intenção de aniquilar o inimigo.

O Exército vai tratar do crime organizado envolvido com assaltos e tráfico de drogas. A Operação Lava Jato já está cuidando dos políticos bandidos que igualmente causaram enormes danos à população. Se estas operações tiverem sucesso, além de Cidade Maravilhosa o Rio será uma cidade maravilhosamente próspera.

Como o próprio nome diz, o Crime Organizado não é desorganizado, tem hierarquia, leis, comando, punições. Sendo organizado, já detectou que não dá mais para investir no Rio. A meca do tráfico não dá mais lucro. Não haverá mais investimentos naquele Estado. Chegou alguém mais forte que inviabilizou os negócios. Neste caso o que faz uma empresa que pretende se manter no mercado? Abre filiais ou muda-se para outro local. O crime organizado está de malas prontas. Temos como exemplos mais óbvios, Roraima, onde os venezuelanos estão sendo recrutados pelo crime organizado, e Ponta Porã, fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Há poucos dias estive nessa cidade e ouvi de um morador:

- Nós aqui ouvíamos música de fronteira, brasileira ou paraguaia, ou música sertaneja de raiz. Depois que os traficantes do Rio mataram o Jorge Rafaat, que dominava o tráfico na fronteira, passamos a ouvir muito samba e funk. Antes, não tinha essas músicas aqui.

Há muito tempo que o Rio de Janeiro já vem sendo tomado pelas forças armadas, já se vão trinta anos de investida contra o tráfico e, como a intenção era apenas ‘combater’, o crime continua desafiando decretos, tanques e patentes.

Para enfrentar o cartel de Medelín e as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -, a Colômbia investiu em infraestrutura e condições sociais fortes em Medelín e esvaziou os cofres das FARC. Aquele país pegou os jovens pela mão e os trouxe para junto de si. Investiu em educação, iluminou as ruas, construiu teleféricos. O Estado se apresentou como primeira opção. O tráfico ficou como segunda opção.

O governo não venceu enquanto enfrentou o crime na bala, foram 50 anos de troca de tiros. A solução foi minar as finanças das FARC. Agora elas se entregaram, fizeram acordos que podem ser questionados e estão concorrendo na política local.

Tudo leva a crermos que o Exército no Rio não encontrará mais a quem prender; dificilmente exibirá como troféu um paiol de armas ou toneladas de drogas. Os militares darão um basta, mas não resolverão o problema. Se os militares botarem todos os bandidos cariocas atrás das grades ainda sobrarão os jovens que já simpatizam com o crime.

Por fim, o Brasil não pode deixar os jovens cariocas perambulando pelas ruas enamorando-se do tráfico. Eles têm que ser seduzidos a largar o crime para flertar com educação e trabalho.