Crônicas

A alegria da foto feliz


Machado de Assis teria dito que não confiava no escritor que diziatudo. O autor desta fotografia também não diz tudo, deixa pelo caminho um fio interminável de questionamentos... Aqueles tocos de madeira à direita seriam propositais? Esta foto tem uma história por trás dela. Uma história além da foto. Os personagens têm suas histórias que não são reveladas aos espectadores. Existe também a história do fotógrafo com ela. Enfim, existem inúmeras questões que deixam a foto com uma enorme interrogação no imaginário de quem a aprecia. Também não sabemos quase nada sobre os modelos. Todos esses ingredientes, ou a falta deles, deixam-na arrebatadora.

As interrogações que instigam nossa alma levam-nos a buscarmos informações que saciem nossas curiosidades. O ser humano é alimentado por curiosidades. Não fossem as centelhas constantes não teríamos evoluído tecnologicamente nem procurado caminhos que nos levassem a vivermos mais e melhor.

Sendo a alma um ser que visita ora o sagrado, ora o profano, talvez seja ela a essência desta fotografia. É uma fotografia poética que traz em si uma poesia singular... são camadas poéticas remetendo-nos ao sagrado.

Tudo leva a crer que o autor desta foto ficou arrebatado com a cena tal qual o anão Nibelungo ao ver o ouro protegido pelas sereias. Não sabemos se os modelos posaram ou foi uma cena inesperada. O fato é que uma vez pressionado o botão do clique fotografia e fotógrafo são eternos cúmplices.

Tal qual o rio que não se limita às margens esta fotografia vai além das bordas que a delineiam, transcende a moldura que o fotógrafo demarcou. Não se questiona se ela está enquadrada, se o foco está perfeito, se obedece às regras da composição. Ela é superior à toda rigidez convencional.

Ao mesmo tempo que essa fotografia é verdadeira ela traz uma nuance de sonho, de irrealidade, de incredulidade. Talvez seja a superação. Toda dificuldade superada é aplaudida pela plateia. Tanto é assim que aplaudimos de pé os grandes feitos dos atletas, dos artistas, das pessoas de bem...

Os modelos aqui estão entregues um ao outro, numa relação de olho no olho. Existe uma inundação de cheiros... cheiro de pai, cheiro de filho. Total intimidade, plena confiança. Quem de nós se deixaria ser jogado para o ar por alguém que tem apenas uma perna? O garoto deixou-se! Suspenso no ar, ele está vibrando com essa aventura. Ele sabe que se cair não tem nem as próprias pernas para amortecer a queda. Cairá com todo o corpo no chão duro. Ainda assim não está com medo. Está entregue. Está seguro pelos fios dos sorrisos do coração. É essa entrega que nos encanta nessa fotografia. É essa audácia dos atores que nos fascina porque talvez não tenhamos a coragem desse menino. Por isso o aplaudimos de pé.

O pai que teve a perna amputada, não está choramingando lamentando a perda. Ele está feliz por ter o filho. Quantos pais têm as duas pernas e não têm os filhos? Quantos dariam uma perna para ter o filho de volta?

A entrega desse pai é o que nos deixa tão inspirados para debatermos, admirarmos, e manifestarmos as diversas reações próprias do ser humano.

Esta fotografia encanta-nos por ser verdadeira. Não é abstrata, é realista, inteira. Identificamo-nos com os modelos na foto porque enquanto humanos temos essa facilidade de nos identificarmos com os semelhantes. Outro fator que nos prende é que ela está alegre, imponente, indiferente às reações do público. Só a alma humana sabe expressar essa alegria. Outros animais até ficam alegres, mas é uma alegria animal, não é humana. Se mostrarmos essa foto para um animal doméstico ele ficará indiferente pois não consegue emocionar-se diante da beleza de uma rosa, de um pôr-do-sol ou de uma fotografia. Só o ser humano tem essa capacidade. A alegria nesta foto não é uma alegria contida, tímida, é uma alegria escancarada, superando obstáculos. Uma alegria altiva, solta, leve... É uma alegria feliz!