Crônicas

A espera de Bicudo e Porpouco

Por volta dos meus dezenove anos tive um tucano. O preto que cobria o dorso dele e o peito branco o faziam lindo. O longo bico com amarelo, vermelho e laranja o deixavam lindo e imponente. Batizei-o de Bicudo.

Não me lembro como cheguei até ele. Como diz a atriz Célia Biar “quando a gente chega a essa idade, tem de andar em bando pra ver se lembra das coisas”. Só sei que ele tinha a perna direita quebrada. Levei-o a um médico veterinário perto de casa, na Ceilândia. Inicialmente o médico não quis pegar o caso, disse que não tinha como cuidar do bicho. Creio que ele entendeu o sofrimento do tucano e resolveu assumir o paciente. Ele engessou a perna do coitado. Isso mesmo. Não sei como os veterinários de hoje tratariam o Bicudo.

Bicudo era apegado a mim. Quando passeávamos na bicicleta Monarck, ele ia no guidom ou no meu ombro, todo faceiro. Não sei quanto tempo ele ficou pulando tal qual Saci de perna branca pela casa. Até que certa noite caiu chuva torrencial e Bicudo amanheceu morto afogado numa poça no quintal. Por vários dias me penitenciei porque não o coloquei para dormir dentro de casa. Mas como dizem os sábios, outros assuntos entraram na minha vida e Bicudo virou passado. Virou?

Hoje, uns quarenta anos depois, passando de carro no viaduto no fim do eixo monumental, perto do Palácio da Alvorada vi no asfalto uma rolinha se debatendo e ao seu lado o parceiro tentando socorrê-la. Creio que ele gritava “alguém me ajuda, minha amada está ferida”, ou “calma meu bem vou te ajudar, confia em mim, estou aqui”. Seu grito foi tão forte, tão sofrido, que ouvi. Dei a volta, não como humanista, mas como fotógrafo frio e calculista. Desci do carro com a câmera em punho e imaginei que faria uma foto do casal com um pneu de carro passando próximo, ameaçando-os. Seria um fotão! Preparei-me a certa distância, mas os pássaros não estavam mais lá. Certamente algum carro já os teria atropelado, foi o que imaginei!

Para quebrar toda a minha arrogância a rolinha machucada havia saído do asfalto e estava na grama. Prefiro acreditar que ele a puxou pela asa para livrá-la do pior. Guardei a câmera, peguei a rolinha que tentou fugir, mas estava com a perna quebrada. Quando vi aquela situação Bicudo veio-me à mente com todas suas cores e beleza.

Imediatamente coloquei a rolinha no carro, liguei o rádio na Rádio MEC - que toca música clássica, para deixá-la o mais confortável possível. Levei-a num veterinário especialista em animais exóticos. “Aqui só não cuidamos de gato e cachorro”, disse a moça simpática ao me falar da clínica. O médico constatou que a rolinha estava com o fêmur quebrado, certamente foi atropelamento, mas aparentava boa saúde. Ele a sedou para não sentir tanta dor e faria uma tala para colar o osso de volta. A batizamos de ‘Porpouco’... Por
pouco ela não morreu. Demos uma boa gargalhada e fui embora com a alma sossegada.

─ Ela receberá alta em três dias, mas terá que ficar em casa até sarar por completo. Informou o médico.
─ Vou soltá-la no mesmo jardim onde a encontrei. Ficarei com ela ali até seu parceiro aparecer. Prometi para mim mesmo.
Horas depois, já em casa, eis que toca o telefone.
─ Alô!
─ Seu João. Aqui é da clínica. Tenho uma notícia nada boa. ‘Porpouco’ veio a óbito. Fui fazer exame mais minucioso e vi que a parte superior da coxa estava bastante dilacerada. Havia um pouco de intestino exposto. Infelizmente!

─ Que pena, doutor! Estou justamente rascunhando uma história com final feliz.

─ Mas é um final feliz. Ela morreu tranquila, bem abrigada e sem sentir dor.

─ Verdade. Obrigado pelo atendimento. Abraços!

Espero que Bicudo esteja de asas abertas para recebê-la. Ao se encontrarem ele dirá.

─ Vamos ficar aqui e esperar o João tentar salvar outro pássaro.

Perguntará ela assustada.

─ Esperar quarenta anos?

─ Sim. Se ele virar anjo e tiver a asa quebrada apresentaremos ao veterinário celestial. Aquele ali tocando harpa, ele conserta as asas dos anjos. Não temos pressa, temos a eternidade.

Deram boa gargalhada e saíram voando firmamento adentro.

João Rios, janeiro de 2021