Crônicas

A primeira fotografia

Esta é a primeira fotografia que meus olhos contemplaram. Sou eu com oito meses de idade. Junto com ela trago a imagem da mamãe sorrindo e me exibindo com orgulho às visitas e familiares. Acho que ela só fazia isso à tardinha, pois o alaranjado do pôr do sol vem junto com essas lembranças. Nossa casa era de chão batido, paredes de massapé, coberta de palha no interior do Maranhão. Não sei quando essas recordações começam, creio que a partir de uns seis anos de idade.

Mamãe mostrava a foto para comparar o quanto eu era gordo aos oito meses, mas após tomar um mingau de Arrozina tive uma diarreia e nunca mais recuperei o peso. Para escrever esta memória mostrei a ela a fotografia e novamente ouvi seu desgosto: “foi aquele mingau que deixou você esse magrém”. Antes de qualquer polêmica não culpo o delicioso mingau da Arrozina.

Para manter a tradição, como esta foto está passando de geração estou aqui mostrando-a aos meus netos.

Mas ela não é apenas uma foto, é uma canção da memória, de uma história... da minha história.

Seria muito difícil eu dizer qual a última fotografia que vi por que as ruas, os telefones celulares e computadores estão povoados de fotografias. Aliás, hoje existem duas comunidades: a dos humanos e a das fotografias. Onde quer que formos tem rastro do ser humano. Sem sair de casa, recebemos fotos de qualquer lugar da terra, das profundezas abissais ou do infinito celestial.

O que eu fiz com a minha fotografia? Guardei-a até hoje. E o que fazer com as fotografias que nos aparecem a todo instante? Descartamo-las num piscar de olhos. Só levamos para a posteridade aquelas que mexem com nossa imaginação, com nosso olhar, com nossa alma.

Não deixamos jogada numa gaveta escura a fotografia que marcou nosso Ser, que mexeu com nossos sentidos. Essa a colocamos no altar do nosso coração. A tiramos para a luz, damos-lhe vida. Essa troca de iluminação está presente em todas as relações de satisfação mútua e intensa. A fascinação que adentra no olho e vai até ao coração é o que alimenta nossa alma eterna. Neste instante nos tornamos deuses, criamos e zelamos pela criatura. Quanto mais bela nossa cria com mais carinho a expomos ao mundo.

Mamãe se sente uma deusa criadora. Gerou a criança e a fotografia da sua cria. Uma deusa orgulhosa de sua criação. Não basta exibir a cria, quer que os humanos a conheçam e admirem-na desde tenra idade.

Ela, a Criadora, fez uma cria forte e sadia. Não a retocaria em nada. O fotógrafo, creio que foi o senhor Cinésio, também se investiu de supremo e fez um retrato irretocável. Mas o ousado mingau, tal traquinagem de anjo caído, adulterou a bela criatura!

Essa fascinação pela criação é o que alimenta a alma do artista. Como Criador exigente está sempre aperfeiçoando, mostrando, pedindo aplausos.

Essa fotografia para você não fará nenhuma diferença, mas para mim ela é a parte da história da minha vida. Ela é a primeira fotografia que meus olhos vasculharam.

                                                                                                                                                                                                             João Rios, junho/2021