Crônicas

Ame Sem Limites

Ontem, indo para casa após mais um dia de trabalho, o semáforo vermelho me obrigou a parar. Atrás de mim uma fila enorme de pessoas em seus carrões também parou - os humanos tendem a repetir os hábitos. Neste caso, cada qual retornando com o dinheiro do trabalho para o sustento da família. O caso que trago para reflexão é do vendedor do livro (foto acima) no semáforo que ao fim do dia também precisa levar o sustento para casa.

Ele deixou o livro pendurado no retrovisor, fez isso com vários carros, e saiu correndo para recolher os livros ou o dinheiro em caso de venda. Comprei. Só que me enrolei para pegar o dinheiro. Sinal abriu. Nos segundos de sinal verde houve uma sinfonia de buzinas por causa do meu embaraço. Todos querendo chegar em casa e mostrar para a família que o dia fora produtivo.

Em vinte segundos, livro pra cá, dinheiro pra lá... Era só pisar no acelerador e ir embora. Fiz todo esse ritual, mas meu coração ficou naquele semáforo. Fiquei matutando. E se eu estivesse aos tapas e pontapés com aquele vendedor, as pessoas buzinariam ou sacariam o celular para filmar a brutalidade?

Os motoristas que voltavam felizes para casa não se importaram com a felicidade daquele vendedor em realizar uma venda e ganhar um dinheirinho. Aqueles motoristas também não tiveram empatia com um trabalhador que, igual a todos nós, garantia mais uns trocados no bolso. As pessoas em seus carrões não se identificaram nem com o vendedor nem com o comprador. O que eles queriam era o caminho livre que o interrompemos por uns vinte segundos.

“Empatia” vem do grego empátheia, que significa “Tendência para sentir o mesmo que outra pessoa”. Aqueles motoristas não se colocaram no lugar nem do vendedor nem do comprador. Igualmente não se poderia esperar amizade pois amizade só existe quando há cumplicidade, ensina Aristóteles. Igualmente não poderíamos esperar compreensão pois eles não compreendem o que é viver de vendas num semáforo e também desconhecem a importância daquele livro para meu netinho. As buzinas impacientes gelaram meu coração.

A missão deles era chegar em casa e contar as novidades, ensinar os filhos a serem pacientes e atenciosos com o próximo e garantir um sorriso da pessoa amada.

Aquele era um dos dias mais frio da cidade. Ao chegar em casa abri meu celular e vários colegas se compadeciam da situação precária de algumas pessoas e se organizavam para uma ação social onde entregaríamos cobertas e alimentos a uma comunidade muito carecida de atenção. Ao chegar no local para entregar as doações os voluntários não tiveram pressa de ir embora, paramos para ouvir as histórias daquele povo e nos identificamos com aquelas pessoas, houve empatia. Isso aqueceu meu coração.

Compaixão e empatia são virtudes que ajudam a preservar a humanidade existente em nós. Finalizo deixando essa reflexão de Buda: “Que nenhum engane o outro nem despreze ninguém em nenhum lugar. Como a mãe que protege o filho com a bondade ilimitada e amorosa, aprecie o mundo. Ame sem limites”.

 

Maio de 2022