Crônicas

Escolhas

Há poucos dias uma jovem me disse que um amigo dela morreu num acidente de carro e ninguém lamentou a morte dele.
“Ninguém mesmo!”, reforçou. Segundo ela, ele não soube cativar os amigos, não era bem quisto no grupo do whatsapp. Ele fazia o tipo ácido nas palavras, árido nos sentimentos e não confiável nas ações.

Possamos imaginar, talvez, que os amigos deste jovem tenham sido intolerantes. Porém, as chicotadas com que ele, provavelmente, açoitou o grupo foram muitos fortes, deixaram marcas nos corações. As pessoas queriam-no por perto, tanto é que ele fazia parte do grupo nas redes sociais e fora convidado para inúmeras baladas. No entanto, ele não soube colher os frutos que os amigos ofereciam, não soube rir das mesmas piadas, nem tampouco olhar os colegas com ternura e bondade. Doçura e carinho, era só isso que os amigos esperavam dele.

Esse caso acendeu uma luz amarela na jovem que me contou o caso.
─ Não quero isso para mim não. Quero ser lembrada com saudade! – Disse com convicção.
─ E o que você tem feito para merecer ser lembrada?
─ Procuro ser ótima companhia. Quando estou com saudade deles chamo-os para sair e trocarmos confidências, chorar as mágoas ou rir de uma boa piada.
─ Quando você morrer qual legado quer deixar? Perguntei, procurando esticar a conversa.
─ Hoje procuro ser a Verônica que enxugou o rosto de Cristo. Procuro estar perto deles na alegria e nas horas difíceis.
Amanhã mesmo uma amiga vai dormir lá em casa, está muito triste com o casamento em crise. Há poucos dias, a Maria largou o marido para fugir com a Antônia. Só que o marido pensa que é apenas uma briga de casal, coisa passageira. Mas é paixão braba! Ela não vai voltar para ele. Aí fico no meio dos dois, amo os dois. Quero ser lembrada por essas confianças.

─ Estiquei a conversa. A vida não é feita só de alegria ou só de tristezas. Ao longo da nossa jornada, quantas quedas tivemos?
Sempre nos levantamos. Por altos e baixos todos passamos. Será que vocês não foram egoístas e não deram a mão a esse rapaz quando ele esteve caído?
─ João, fomos a Verônica dele muitas vezes. Na verdade, ele nunca se levantou. Mas estávamos sempre lá enxugando o rosto dele.
─ O que vocês viam no lenço?
─ Ela respondeu com o olhar baixo. Víamos o de sempre, rebeldia, grosseria. Nenhum gesto de cortesia.
─ Menina, o que você está me contando parece que você está chicoteando esse rapaz. Vejo vocês colocando uma coroa de espinhos na cabeça dele.
─ Pode até parecer, mas ele foi para o calvário por conta própria. Pode ter certeza, sempre mostramos os outros caminhos, sempre reprovamos as atitudes dele. E ele sabia disso!
─ E se vocês ouvissem a mãe dele, o que vocês acham que ela diria?
─ Para a mãe o filho está sempre certo. Teria-o tirado da cruz. Nenhum de nós foi ao velório, mas a mãe dele foi. O caminho do calvário foi escolha dele. Infelizmente ele não aprendeu com as quedas que teve. Arrisco dizer que ele mesmo se chicoteou, se auto imolou.
─ Você conseguiu aprender alguma coisa com ele?
─ Sim. Aprendi que não quero nem o estilo de vida nem o comportamento dele. Isso não cabe na minha alma. Aprendi também que a energia e o tempo que gastamos para ser ásperos ou ríspidos são os mesmos que gastamos para falarmos palavras amigáveis ou de conforto. Ser delicado ou grosseiro é uma questão de girar a chave das escolhas. Moderar o ímpeto faz muito bem a si e às pessoas que nos são caras.

─ Continuei provocando. Estamos todos no mesmo planeta, na mesma época, vivendo mais ou menos as mesmas experiências. Temos mais coisas nos aproximando do que nos afastando. A internet não é uma delas? O dinheiro não é cobiçado por todos os humanos? Todos, igualmente, queremos nos livrar da Covid 19. Temos o mesmo céu, o mesmo sol. Árvores estão presentes em toda a terra. Pássaros também! Nesses momentos em que apreciamos essas belezas nossa alma se eleva. A alma de Cristo se elevou quando ele ressuscitou. E quando morrermos, queremos um lugar reservado
à direita do pai.

─ Ela sorriu e finalizou. Temos tudo isso e muito mais que nos aproxima. As escolhas são individuais, feitas no silêncio de cada um. Quando eu morrer quero não só me sentar à direita do pai, como sentar no colo dele e acarinhar a barba branca dele. E ainda vou dizer a Cristo, quando você voltar quero ir junto.

Demos uma boa gargalhada e seguimos nossos caminhos com nossas escolhas.

Brasília, Julho de 2020