Crônicas

Esperança para dar e vender


Eu estava na mata, à espreita, para fotografar um Pitiguari que pulava de galho em galho. Era perto de casa. Quando ouvi um sussurro:

─ Ei!

Virei-me assustado e incrédulo, pois não imaginava encontrar alguém naquela mata.

─ Ei, aqui em cima. Olha para cima.

Para meu espanto, era o ano 2020 sentado numa nuvem.

─ Rapaz, endoideceu? Desce daí. Se esta nuvem se desmanchar você irá se esborrachar no chão.

─ Não se importando com o risco, respondeu com convicção: Não vou descer, quero sumir. Ir embora com ela.

─ Por quê? Que cara de desânimo é essa? Desce, vamos conversar.

─ Ninguém mais gosta de mim. Esse Coronavírus me arruinou. Alguns dizem que 2020 é o pior ano da história. Outros, que preferiam ter nascido depois de 2020. Serei o ano mais escrito nas lápides nos cemitérios.

─ Apesar da relutância dele, insisti: Meu querido 2020, entendo como teus dias estão pesados! Mas está pesado para todo o mundo, todos os povos, para todas as nações. Não é nada pessoal com você, comigo ou com quem amamos. O peito de todos está apertado. O meu aperta ainda mais quando lembro que lá no dia 1º de janeiro, na noite do réveillon, vestimos branco, reunimos família e amigos para comemorar tua chegada. Lembre-se dos risos e abraços daquela noite e desce já daí.

─ Desiste João, você não vai me convencer. Quero sumir!

─ Calma. Você está sofrendo que nem nós, você é um de nós. Você não trouxe a Covid19, quem a trouxe foi o ano anterior, por isso Covid19. Fomos nós quem a trouxemos para você. Você não nos contaminou. Não foi você quem produziu este vírus. A culpa é nossa, dos nossos hábitos, da nossa mania de não ficarmos parados. O vírus chegou porque temos mania de viajar, sair de casa em busca da falsa felicidade: “Ah, vou ser feliz, vou viajar”. Trouxemos na bagagem e no corpo essa doença que nos tem sangrado por dentro.

─ Convicto, retrucou: não quero entrar para a história como 1915. A seca daquele ano ficou eternizada na obra O Quinze, de Raquel de Queiroz; Eu também não quero ser lembrado como 1929, que entrou para a história como o ano da Grande Depressão Americana.

─ Apertei no sentimentalismo: Meu caro 2020, você já percebeu como você é um número tão simples, de tão bonita pronúncia! Vinte vinte ou dois mil e vinte saem liso da garganta, sem esforço. Ninguém no mundo fazia ideia do quanto estes dias seriam difíceis. Por outro lado, pense nos dias leves que estamos tendo. Você reparou nas crianças que nasceram este ano? Em como essas famílias ficaram felizes com a chegada dos pimpolhos? Pense também na multidão de crianças nascendo daqui a nove meses. Você percebeu os sorrisos pela recuperação de muitas vítimas do coronavírus? São milhares de pessoas aplaudidas saindo curadas do hospital! Você viu como a solidariedade está espalhada entre as pessoas? Grandes empresas e pessoas simples estão ajudando os que mais precisam. Será que você vai querer virar poeira e sumir? E a sua responsabilidade com você e com os outros? Quem disse que este ano seria fácil? Lá em janeiro houve um desejo coletivo de felicidade e prosperidade. Você é apenas um ano dentre milhões que a humanidade viu passar. Quem garante que essa nuvem será para sempre branquinha e calma que nem agora? Logo ali ela pode subir
e esfriar a menos 50ºC; mais à frente ela pode encontrar uma tempestade, entrar nela, bailar com o vento forte, ágil, e de alegria despencar do alto em forma de gotas para lavar a terra... Ou seja, a vida dela irá correr independentemente de você sorrir ou chorar. Esse é o papel dela. Agora para de choramingar e venha para sua luta.

Ele mudou o semblante, enxugou uma lágrima. Senti que havia acertado o ponto, então continuei:

─ Pense numa pessoa de 90 anos de idade. Quantos anos ruins ela enfrentou? Nem por isso largou tudo e sumiu do mapa. Quem garante que lá para onde quer que você vá seja melhor do que aqui? A criança que nasceu hoje para sempre vai lembrar de você e te festejar no dia do aniversário dela. Milhares de jovens contarão com orgulho que enfrentaram essa pandemia sem perder nenhum parente. É certo que muitos empresários estão fechando as portas e muita gente sem emprego. Isso dói! Mas muitos outros se reinventaram e aumentaram os lucros, enquanto novas empresas foram criadas. Acabei de ver isso no programa Pequenas Empregas, Grandes Negócios. Todos eles irão te agradecer por mostrar novos caminhos. A gente não tem nem a certeza de que o dia será maravilhoso, sem problemas nem chateações. O mesmo se dirá de uma semana, um mês, um ano. Ainda não perdi a esperança. Continuo repetindo, feliz 2020. E continuo cantando:

Adeus ano velho,
Feliz ano novo.
Que tudo se realize
No ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso
Saúde pra dar e vender...

─ E arrematei: Você fez eu perder meu passarinho. Mas não vai me fazer perder a esperança. 2020, quero ficar com você até 31 de dezembro. Nesse dia quero te abraçar, repousar no teu colo, quero sair às ruas contigo e dizer... Vencemos! 2020, estou com você, apesar desta doença, de todo esse peso. Vou atravessar com você! Agora, desce daí e toca de volta o Pitiguari que você espantou.