Crônicas

Nem tudo está perdido

A Covid 19 trouxe ao mundo nova realidade para toda a humanidade. O novo coronavírus aplicou a democracia e não poupou ninguém, matou milionários e miseráveis, não distinguiu raça, gênero nem credo religioso.

Como toda crise clama por inspiradores, a pandemia da Covid 19 enalteceu os políticos com visão de futuro e sepultou os míopes que não se condoeram nem sentiram falta dos mais de 640 mil compatriotas que perderam a batalha para a Covid.

Ainda nesse terreno lodoso outras tragédias perturbaram os brasileiros. Encheram-nos de lágrimas as perdas de vidas nas enchentes na Bahia e em Petrópolis e os dois assassinatos covardes no Rio de Janeiro. O jovem congolês Moïse morto a pauladas por ter ido cobrar o salário fruto do seu trabalho e o caso do sargento da Marinha que matou o vizinho negro Durval Teófilo Filho pois o confundira com um bandido.

As mortes dos brasileiros vítimas da Covid e essas tragédias têm deixado o nosso país triste. Desde o início da pandemia sentimos falta da alegria do brasileiro.

Mas nem tudo está perdido.

Em meio a esse turbilhão de tristezas o Brasil acolheu duas juízas afegãs juradas de morte no Afeganistão tão logo o regime talibã assumiu o poder com a saída dos americanos. O crime delas: serem mulher e juízas. O apoio das magistradas brasileiras ao resgaste dessas juízas aliviou nossos corações. Sejam bem-vindas Maryam e Zahra (nomes fictícios).

Ontem o Heitor, de apenas seis anos, descobriu que toda carne vem de um animal morto por alguém. Como ele é muito apegado aos animais, decidiu que não mais comerá carne. Em solidariedade a ele prometi que quando estivermos juntos eu também não comerei. Foi um alívio na minha alma ter na família um defensor dos animais nestes tempos em que grupos que se dizem inteligentes e sábios armam-se para caçar animais que não têm a menor chance de defesa. Esses ‘inteligentes’ divertem-se ao matar uma vida que respira o mesmo oxigênio e bebe a mesma água que nós. Não os matam para saciar a fome, fazem por crueldade. E ainda chamam isso de esporte.

O garoto Rayan caiu num poço de 32 metros no Marrocos. O resgate dele comoveu e uniu aquele país na tentativa de tirá-lo com vida. Infelizmente ele não resistiu e morreu após três dias no buraco. Por três dias o país esqueceu seus problemas, ignorou que enfrentava uma pandemia e não mediu esforços para salvar a vida do menino... Bastou uma criança estar em apuros para a população unir-se em esforços e orações em torno de uma vida.

Apesar dos temas sombrios que iniciam esta reflexão, o resgate das juízas afegãs, a decisão de uma criança em não matar os animais e a união de um povo para resgatar uma criança são temas que confesso deram-me um respiro na alma.

Trago esta reflexão na intenção de repartir com vocês um pouco de esperança no pequeno círculo que participamos. Este pequeno círculo é nosso mundo, resume-se mais ou menos aos companheiros do trabalho, alguns familiares mais próximos e colegas com quem temos afinidades.

A cada dia e enquanto estivermos vivos teremos nossas lutas diárias. Levantar da cama ao amanhecer é o primeiro embate do dia, tolerar os motoristas apressados e mal-educados é um exercício que nos educa a cada quilômetro. Espantar os maus pensamentos é outra batalha diária. Assistir aos maus feitos dos políticos fortalece nossa resiliência. Ou seja, cada um de nós tem uma batalha à espreita. A história ensina que sempre existirão construtores e destruidores, resta-nos escolher um lado e formar trincheiras. Afinal, nem tudo está perdido!